segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Memórias de infância

Em Outubro de 1968 (as aulas começavam no início de Outubro), com 6 anos começou uma nova etapa da minha vida: a escola primária. Foi nessa altura que tive contacto com a violência. A primária começava na 1ª classe e acabava na 4ª classe. Mas atenção, quem não estivesse em condições de passar de ano simplesmente não passava. Ninguém ficava traumatizado por chumbar, se o aluno não tinha condições para transitar para a classe seguinte não transitava e pronto. Era um dado adquirido e ninguém contestava, ninguém se preocupava com estatísticas. As turmas não eram mistas e as meninas usavam bibe branco (não me lembro se os rapazes também usavam). A minha professora já tinha bastante idade e usava dentadura, quando entrava na sala a primeira coisa que fazia era tirá-la e pô-la em cima da secretária. Se ela tirasse os sapatos e calçasse uns chinelos eu ainda compreendia, mas tirar a dentadura…
Nunca havia só uma classe na sala, os professores davam muito bem conta do recado, os pais não protestavam (também não podiam). Enquanto as alunas da 1ª faziam uma cópia as da 2ª faziam ditado, as da 3ª resolviam problemas de aritmética e as da 4ª faziam uma composição. Nós aprendíamos. Actualmente não pode ser assim, dizem que é antipedagógico, pode ser, mas na minha época as professoras ensinavam e nós aprendíamos. Os professores eram exigentes, hoje isso não se verifica (será que também é antipedagógico?) Não sei quantas alunas havia mas sei que a sala era grande e estava cheia. No recreio éramos sempre muitas. Brincávamos muito. Nos anos sessenta todos os professores tinham emprego. Havia muito mais população jovem porque os casais, de uma maneira geral tinham mais filhos. Hoje em dia nota-se um envelhecimento da população porque nascem poucos indivíduos, logo, os velhos são em maior número. Devido à desertificação as aldeias ficam cada vez com menos população jovem e por isso as escolas têm cada vez menos alunos. Manter escolas com menos de vinte alunos a funcionar não é de todo uma boa opção. É desmotivante para o professor. A minha cunhada deu aulas numa escola numa aldeia perto da Guarda, tinha dois alunos do 1º ano, três do 2º, 4 do 3º e 6 do 4º, gostava de ser professora mas todos os dias detestava ir para o trabalho. É desmotivante também para os alunos. As crianças precisam de socializar e para isso precisam de outras crianças, além disso a concorrência também lhes faz bem para terem sucesso nos estudos.
A decisão do ministério da educação de fechar escolas com menos de vinte alunos é muito boa mas não deixa de ser polémica. Se por um lado se pensa no interesse superior da criança que tem direito a uma educação que promova a sua cultura, em condições de igualdade de oportunidades, desenvolver as sua aptidões mentais, o seu sentido de responsabilidade moral e social e tornar-se um membro útil à sociedade (artigo 7º), por outro sabemos que não é fácil para os habitantes de uma povoação já desertificada reconhecer a necessidade de fechar a escola. É óbvio que uma localidade com défice populacional sem escola estará condenada ao abandono. Sabemos que muitas famílias estão a “fugir” da cidade à procura de melhor qualidade de vida, longe da confusão do trânsito e também porque a construção é mais barata, mas em princípio a maior parte das pessoas prefere ficar num sítio que tenha escola que esteja mais ou menos servido de transportes que tenha mercearia, enfim que tenha o mínimo de infraestruturas. Acaba por ser um ciclo vicioso, onde não há população não há investi-mento. No entanto é imperativo que ao fechar as escolas que não oferecem condições dignas às crianças, dotar as que permanecem a funcionar de meios que deixem os pais com a certeza de que os seus filhos estão “bem entregues”. Mas algo fundamental ainda não foi conseguido: exigência (e não se obtém com “Magalhães”, por muito sofisticados que eles sejam). Se estas mudanças servirem democraticamente o superior interesse das crianças, se forem efectivamente para seu benefício, venham elas!

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